UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

15 de março de 2018

O TESOURO DE SIERRA MADRE (THE TREASURE OF THE SIERRA MADRE) - HUMPHREY BOGART ENLOUQUECE NAS MONTANHAS MEXICANAS


John Huston

Entre as diversas vertentes do gênero western está aquela que produziu filmes ambientados no México com características e personagens próprios. Hollywood primeiro e o western-spaghetti posteriormente assimilaram bastante dessa vertente, se bem que o cinema norte-americano de há muito se interessara pela História e por histórias do país vizinho, como o fez em 1934 com “Viva Villa!”. Em 1935 o jovem roteirista John Huston leu “The Treasure of the Sierra Madre” e desde então ficou obcecado por essa aventura escrita por um misterioso autor que assinava B. Traven e que vivia no México. De roteirista (“Jezebel”, “Juarez”, “Sargento York” e “Seu Último Refúgio”) Huston passou a diretor e “Relíquia Macabra” foi seu primeiro filme na nova função, tendo ainda voltado a dirigir Humphrey Bogart em “Garras Amarelas”. Somente em 1947, após a guerra, Huston conseguiu retomar o projeto de filmar a história de Traven, fazendo chegar um roteiro ao escritor que o aprovou mesmo tendo sido atenuados os fortes aspectos anticapitalistas do livro e ignoradas as menções ao anarquismo. Para dar maior autenticidade ao filme Huston conseguiu com Jack Warner que as locações fossem no México, algo pouco comum naqueles anos. Os três personagens principais da história seriam vividos por Humphrey Bogart, Walter Huston (pai de John) e Ronald Reagan, este como o mais jovem da expedição que parte para as montanhas em busca de ouro. Reagan acabou sendo substituído por Tim Holt. Definido inicialmente como um filme de aventura e apesar de a ação se passar em 1925, estão certos os autores Phil Hardy, Buck Rainey-Les Adams e Paul Simpson que classificam “O Tesouro de Sierra Madre” como um western, dentro daquela amplitude que o gênero ganhou.


Acima Tim Holt e Humphrey Bogart;
Walter Huston; e abaixo Alfonso Bedoya.
O ouro perdido - Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) é um norte-americano que perambula pela cidade de Tampico onde conhece o conterrâneo Curtin (Tim Holt), igualmente desempregado. Ambos são enganados por um empregador desonesto (Barton MacLaine) com quem travam luta e acabam por receber o salário combinado. Ao dormir num albergue escutam a conversa de Howard, um velho também norte-americano (Walter Huston) que convence os dois a juntarem o pouco dinheiro que têm para formar uma expedição para prospectar ouro numa montanha (Sierra Madre). Graças à experiência de Howard conseguem superar várias dificuldades e juntar quase 100 mil dólares em ouro bruto. Surge então o texano Cody (Bruce Bennett) que pretende se tornar sócio do trio, o que não chega a acontecer pois são atacados pelo bando de Gold Hat (Alfonso Bedoya). Defendem-se como podem e ao final Cody é morto e os bandidos fogem com a aproximação dos rurales que querem capturá-los. Dobbs, Curtin e Howard decidem encerrar a expedição e é quando Dobbs aos poucos muda seu comportamento passando a desconfiar dos amigos e em seguida tenciona ficar sozinho com o tesouro acumulado. Dobbs tenta matar Curtin quando Howard se afasta para atender a uma criança doente numa aldeia índia. Dobbs deixa os companheiros para trás e ao se aproximar de um povoado é atacado e morto por Gold Hat e mais dois bandidos que desconhecendo que era ouro o que havia nos sacos que os burros carregavam se desfazem do ouro jogando-o no chão. Em seguida ocorre uma tempestade de vento e o ouro é todo levado pelo vento misturando-se à poeira e perdendo-se. Howard e Curtin conformam-se com a sorte madrasta mas pelo menos continuam vivos.

Humphrey Bogart
Um homem obcecado - A forte impressão que este filme deixa no espectador deve-se muito ao fato de boa parte de sua ação ter sido filmada em locações no México o que levou o elenco praticamente à exaustão diante das dificuldades encontradas. John Huston sabia que essa era a melhor forma de extrair dos atores desempenhos mais convincentes, o que de fato conseguiu. A transformação física e psicológica de Humphrey Bogart é a mais notável, mesmo porque os personagens de Walter Huston e Tim Holt são contrapontos à obsessão que passa a dominar Dobbs levando-o à paranoia. Já idoso, Howard quer apenas um final de vida tranquilo, o que afinal consegue com a tribo que o adota como espécie de herói, médico e conselheiro. Curtin intenta conhecer a viúva de Cody no Texas e, quem sabe, iniciar por lá uma nova vida como agricultor. O realismo obtido por Huston se aproxima de outro filme que tratou do tema do câncer da cobiça que foi “Ouro e Maldição”, de Erich Von Stroheim. Howard advertiu que a loucura poderia se apossar dos homens se estes não tivessem controle diante da riqueza. É quando ele diz com seu jeito gaiato que sabe o que o ouro faz com os homens. Previa o que aconteceria com Fred C. Dobbs que se torna um verdadeiro monstro psicótico.

Acima Walter Huston; abaixo
atores mexicanos.
Influenciando Peckinpah - Mais que uma mera aventura de homens em busca de um tesouro, o que a história de B. Traven roteirizada por John Huston faz é estudar o comportamento humano quando posto à prova. E o faz com rara maestria transformando Fred C. Dobbs num dos mais abjetos personagens do cinema. E louve-se a coragem de Bogart, um dos grandes astros da tela submetendo-se a interpretar esse tipo que ao longo do filme se torna execrável. Huston criou um admirável filme de ação onde não há mulheres, a exemplo de “Meu Ódio Será Sua Herança” que Sam Peckinpah filmaria 21 anos depois. E Peckinpah sequer esconde sua admiração pelo filme de Huston o qual cita quando da disputa pelos bandidos (Strother Martin e L.Q. Jones) pelas botas de um homem morto e quando o velho Sykes ri ao descobrir os sacos de arruelas. Contribui enormemente para a atmosfera única conseguida pelo filme de Huston, além da autenticidade das locações, a fotografia de Ted D. McCord realçando a crueza da paisagem. E são raros os momentos em que a tonitruante música de Max Steiner não interfere negativamente, brigando com as imagens tentando se sobrepor à força destas.  

Acima Alfonso Bedoya;
abaixo José Torvay à direita.
Mexicanos idiotizados - Nem tudo é perfeito em “O Tesouro de Sierra Madre” e além da referida trilha musical de Max Steiner há também o desleixo de deixar visível que não são os atores que travam luta na bodega. O pior caso é o de Tim Holt substituído por David Sharpe com a diferença fisionômica saltando aos olhos. E de certa forma é inaceitável que os bandidos liderados por Gold Hat se interessassem apenas pelos burros, armas e peles dos exploradores de ouro, sem desconfiar que eles trouxessem algo mais valioso da montanha que defenderam com unhas e dentes. Gold Hat se mostra bastante sagaz e seria incapaz de não desconfiar que os muitos e pesados sacos que os burros carregavam, escondidos sob as peles, fossem apenas areia para dar mais peso às peles. Esses detalhes nem de longe tiram o brilho e a força do filme de Huston, filme bastante violento para seu tempo com Dobbs tentando assassinar a sangue frio o companheiro Curtin e mais ainda quando Gold Hat mata Dobbs a golpes de facão. O Código Hays não permitia que as mortes fossem mostradas, mas Huston consegue mesmo assim criar o horror que elas causam. O final um tanto quanto moralista ameniza a tensão que domina o filme e a nefanda figura interpretada por Humphrey Bogart.

Acima Humphrey Bogart e Tim Holt;
abaixo Tim Holt e Bruce Bennett.
Prêmios merecidos - Se Bogart tem um de seus melhores desempenhos no cinema, tendo sido ignorado pela Academia, “O Tesouro de Sierra Madre” rendeu dois prêmios Oscar para John Huston, pelo Melhor Roteiro e Melhor Direção, enquanto Walter Huston recebeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O prêmio de Melhor Filme foi para “Hamlet”, de Laurence Olivier, sendo que o filme de Huston foi um dos cinco indicados para esse prêmio. Walter Huston tem alguns momentos em que se excede na composição do velho zombeteiro e falastrão. Tim Holt rende muito acima do que se poderia esperar e Bruce Bennett (Herman Brix) é uma boa surpresa num papel pequeno mas marcante. Alfonso Bedoya supervalorizou sua participação e pode-se dizer que introduziu no cinema o bandido mexicano gaiato. Bedoya imortalizou a frase “Distintivo? Eu não preciso de distintivos fedorentos”. Barton MacLane e Robert (Bobby) Blake tem pequenas participações e John Huston transita por Tampico como o homem de terno branco que dá moedas a Fred C. Dobbs. Fãs de faroestes B reconhecerão Jack Holt e também David Sharpe, um dos melhores dublês da Republic Pictures.

Walter Huston
Bilheterias fracas - Do orçamento inicial de três milhões de dólares, muito acima da média para aqueles anos, o custo final passou de cinco milhões de dólares, isto devido ao tempo a mais que toda a equipe passou nas locações em Sonora e outros locais no México. Quando do lançamento do filme nos EUA, em janeiro de 1948, o público não prestigiou esta produção da Warner Bros. e, sem chegar a ser um fracasso completo, não deu lucro ao estúdio. Com as boas críticas e a repercussão obtida com os prêmios recebidos, através dos anos “O Tesouro de Sierra Madre” obteve sucessivas reprises e hoje faz parte de qualquer boa coleção pois é considerado um clássico no gênero aventura e frequenta muitas listas de melhores westerns, embora, como foi dito acima, não seja um western puro.

Provável foto de B. Traven.
O misterioso B. Traven - Um fato importante sobre os bastidores de “O Tesouro de Sierra Madre” é o que John Huston narrou dizendo que marcou um encontro com o enigmático B. Traven num hotel na Cidade do México, onde esperou pelo autor por uma semana e ao final quem apareceu foi um homenzinho chamado Hal Croves. Este trazia uma carta de Traven dizendo que o portador era a pessoa certa para qualquer informação pois sabia muito mais a respeito de Traven que ele próprio. Croves foi contratado como consultor durante a rodagem do filme mas, para decepção de Huston, pouco ou nada acrescentou ao que se sabia sobre o esfíngico escritor que continuou sendo um mistério jamais totalmente desvendado. Muitas histórias de B. Traven foram levadas à tela, entre elas “Macário” que virou filme com esse mesmo título, estrelado por Pina Pellicer, a jovem mexicana que atuou com Marlon Brando em “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). O fato é que “O Tesouro de Sierra Madre” é um daqueles filmes que merecem ser chamados de ‘filmaço’ e mesmo tendo sido feito há 70 anos conserva seu vigor e força da mensagem.

Documento que seria pertencente a B. Traven,
cujo nome verdadeiro seria Traven Torsvan.

23 de fevereiro de 2018

COM O DEDO NO GATILHO (HELL BENT FOR LEATHER) – O FUGITIVO AUDIE MURPHY


Acima George Sherman;
abaixo Lilian Gish e  Audie Murphy em
 "O Passado Não Perdoa"

O final da década de 50 foi um período bastante agitado para Audie Murphy. Em 1959 ele iniciou a experiência de estrelar uma série para a televisão, tentando concorrer com os bem sucedidos programas “Caravana”, “Gunsmoke” e “Maverick”. Nesse mesmo ano, além de se dedicar à frustrada série intitulada “Whispering Smith”, Audie atuou em dois longa-metragens: “O Passado Não Perdoa” (The Unforgiven) e “Com o Dedo no Gatilho”. Trabalhar com John Huston proporcionou a Audie Murphy aquela que é considerada sua melhor atuação no cinema, enquanto no segundo filme desse ano ele foi dirigido por George Sherman. Veterano especialista em westerns, tendo dirigido John Wayne quando este ainda era um quase desconhecido cowboy, Sherman realizou um pequeno faroeste acima da média entre os tantos estrelados pelo herói de guerra. “Com o Dedo no Gatilho” foi baseado no livro “Outlaw Marshal”, de autoria de Roy Hogan e para produzir este western a Universal Pictures despendeu 500 mil dólares, exatos 10% do que custou “O Passado Não Perdoa”. Proporcionalmente o faroeste de Sherman foi mais lucrativo que o de John Huston e também mais que a fracassada série de TV na qual Murphy se aventurou.


Audie Murphy (acima) e Stephen McNally
Um xerife patife - Baseado no livro “Outlaw Marshal” de autoria de Roy Hogan, “Com o Dedo no Gatilho” narra uma história interessante em que o homem da lei age como bandido. Quando acampava em local ermo o negociante de cavalos Clay Santell (Audie Murphy) é atacado por Travers (Jan Merlin), um assassino procurado pela justiça. O rifle de Travers com a coronha em detalhes prateados fica em poder de Santell que acaba sendo confundido com o assassino na pequena cidade onde ele chega. Deckett (Stephen McNally) é o xerife local, reconhece que Santell não é Travers mas alimenta o equívoco vendo na captura do inocente o reconhecimento de sua eficiência. Santell escapa do xerife com a ajuda de Janet (Felicia Farr), uma professora, e isso propicia a Deckett decretar a busca preferencialmente morto de Santell. Janet morou em uma estação de diligências em local de difícil acesso e, acreditando na inocência de Santell, ajuda-o na fuga do grupo perseguidor. Quando são alcançados reaparece o verdadeiro Travers e o confronto passa a ser entre este, o xerife e Santell, que acaba levando a melhor.

Audie Murphy e Felicia farr
Heroi pouco heroico - “Com o Dedo no Gatilho” poderia ser um western rotineiro, típico filme para programa duplo, entre tantos que Audie Murphy filmou na Universal. O interessante argumento, somado à competência de George Sherman ajudam a diferenciá-lo, sem contar que há ainda a presença de um conhecido elenco de veteranos coadjuvantes. O ponto que mais chama a atenção é que Murphy está distante da figura heroica e imbatível de outros filmes. Já de início é derrubado com uma formidável coronhada (que não lhe deixa nenhuma marca) e vê o estranho a quem ajudou fugir levando seu cavalo. Na sequência a série de mal-entendidos o leva a fugir incessantemente com o auxílio de uma mulher, caso contrário não escaparia de seus perseguidores. Desarmado, quando afinal consegue uma arma esta está descarregada e ele tem pela frente não mais o xerife malfeitor mas o próprio assassino procurado pela Justiça. Apenas na sequência final em que Travers mata o xerife Deckett é que Murphy tem oportunidade de se sair bem disparando e liquidando o bandido. O grande feito de Sherman foi justamente conseguir manter o ritmo do filme transformando o personagem de Audie Murphy em uma pessoa comum, humana e nem sempre capaz dos esperados feitos em um filme de ação.

Allan 'Rocky' Lane;
Lane com Stephen McNally
A presença de Rocky Lane - Os 82 minutos de “Com o Dedo no Gatilho” não permitem maiores aprofundamentos aos personagens coadjuvantes e o filme desperdiça a presença sempre marcante de Robert Middleton em uma sequência que lembra “O Homem do Oeste) (Man of the West), o clássico de Anthony Mann. Além de Middleton este faroeste traz em seu elenco, em rápidas aparições, Bob Steele e Kermit Maynard; em papéis um pouco maiores o fordiano John Qualen e o inesquecível Allan ‘Rocky’ Lane da memorável série de westerns-B da Republic Pictures. Após o fim da referida série, 1m 1953, Allan Lane participou de apenas três filmes sem muito destaque e neste foi o que pode ser visto mais tempo na tela. O sempre correto Stephen McNally poderia dar uma dimensão maior ao patife xerife que interpreta mas não se esforça muito para isso. O mesmo ocorre com a linda Felicia Farr que dá a impressão de não estar à vontade em um filme menor que seu talento. Audie Murphy dentro de suas limitações dramáticas está muito bem como o perseguido pelo equívoco.

Felicia Farr e Robert Middleton

Audie Murphy
Declínio de Audie Murphy - A virada da década representaria o início do declínio de Audie Murphy, declínio que coincidiu com o do próprio western feito em série estrelados por Randolph Scott (aposentou-se), Rory Calhoun, George Montgomery e o mais representativo de todos que foi o próprio Audie. Uma pena que passaram a rarear os faroestes produzidos para programas duplos nos cinemas, dando lugar para a invasão do western-spaghetti que, pelo bem ou pelo mal, supriu o gênero ao longo de outros dez anos.

27 de janeiro de 2018

ALMAS EM FÚRIA (THE FURIES) – UM WESTERN NOIR DE ANTHONY MANN


Acima Niven Busch;
abaixo Anthony Mann e Hal B. Wallis
O conceito de Anthony Mann crescia sem parar nos anos 40, mesmo fazendo pequenos excelentes filmes noir em estúdios da Poverty Row. Ao final da década Mann já era requisitado pelas ‘Majors’ e em 1950 realizou nada menos que três westerns, gênero que passaria a dominar como nenhum outro diretor. Segundo Jeanine Basinger, biógrafa de Mann, a ordem de produção desses três faroestes foi “Winchester 73”, “Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e por último “Almas em Fúria”, ainda que este último tenha sido lançado antes que o faroeste estrelado por Robert Taylor. O mais ambicioso dos três projetos foi sem dúvida “Almas em Fúria” que teve produção de Hal B. Walllis que esperava repetir o fenômeno de bilheteria de “Duelo ao Sol” (produção de David O. Selznick). Afinal a história um pouco parecida era de autoria de Niven Busch, o mesmo autor de “Duel in the Sun”. Consta que foi Wallis quem insistiu para rodar “Almas em Fúria” em preto e branco, mas certamente Mann teve opinião preponderante pois gostava e muito da atmosfera noir, o que um filme em cores dificultava. “Almas em Fúria”, assim como “Caminho do Diabo”, não foram bem recebidos pelo público, ao contrário de “Winchester 73” que custou barato e aumentou em muito a conta bancária de James Stewart que trabalhou por uma substancial porcentagem nos lucros líquidos do filme. A história de Niven Busch, foi roteirizada por Charles Schnee.


Barbara Stanwyck e Walter Huston
Um império em conflito - T.C. Jeffords (Walter Huston) é um poderoso barão de gado, proprietário de uma vastidão de terras chamada ‘The Furies’. Viúvo, T.C. tem em sua rebelde filha Vance (Barbara Stanwyck) a única pessoa capaz de enfrentá-lo. Em comum ambos têm a cupidez e a sede pelo poder. T.C. tenta expulsar os posseiros de sua propriedade e entre estes está a família mexicana Herrera. Vance mantém uma relação amorosa com Juan Herrera (Gilbert Roland), mas se envolve com o jogador oportunista Rip Darrow (Wendell Corey). T.C. consegue expulsar os Herreras e enforca Juan para tristeza de Vance. T.C. fica noivo de Flo Burnett (Judith Anderson), igualmente oportunista e que visa apenas o dinheiro de T.C. Ocorre que o velho barão de gado não cuidou bem das finanças, emitindo uma moeda própria chamada ‘T.C.’ e se vê em dificuldades financeiras. Vance agride Flo ferindo-a no rosto e é expulsa de ‘Furies’, o que a leva a se aliar a Rip Darrow, com quem se casa tornando-se o casal dono de “The Furies”. Ao final a matriarca Herrera (Blanche Yurka) vinga a morte do filho matando T.C e ‘The Furies’ permanece em poder de uma Jeffords, a inclemente Vance.

A moeda de T.C. Jeffords

Gilbert Roland e Barbara Stanwyck;
Thomas Gomez e Walter Huston
Personagens soturnos - Menos lembrado que outros westerns de Anthony Mann, até porque tem muito mais de drama noir que propriamente de um faroeste, “Almas em Fúria” possui um tom de tragédia grega com muitos de seus personagens perversos. O preto e branco das imagens em sua maior parte sombrias, mesmo quando em cenários abertos, destacando as silhuetas quase sempre sinistras, realça os sentimentos raramente nobres. Tanto T.C. quanto Vance não disfarçam a ambição que os move, enquanto Flo Burnett e Rip Darrow emulam pai e filha com seus sórdidos interesses. O homem de confiança de T.C. é El Tigre (Thomas Gomez), tão fiel quanto sádico e sempre pronto a matar para manter os posseiros fora de ‘The Furies’. Nobreza nos personagens deste filme só é encontrada nos humildes mexicanos que defendem seus direitos com o próprio sangue e, mais que todos, Juan Herrera que no momento em que é enforcado não quer que Vance se humilhe pedindo clemência ao pai.

Acima Barbara Stanwyck e Walter Huston;
abaixo Huston com Judith Anderson
Hipocrisia e cobiça - Vance causa repulsa com suas atitudes, humilhando o irmão sem personalidade e impondo-se ao pai, este não menos cruel e capaz de promover o enforcamento do querido amigo da filha. Ao presentear a filha com um colar de pérolas T.C. ouve desta: “Pérolas combinam com mulherzinhas lerdas e ingênuas”, definindo o que ela é. Mesmo assim, como esperar que, num dos mais brutais momentos de um faroeste, Vance desfigure o rosto da futura madrasta lançando uma tesoura na mulher. Esta reação ocorre após Flo Burnett sarcasticamente dizer a Vance que tudo o que quer é uma vida de opulência aproveitando-se da riqueza do homem que vai desposar. Se Vance e Flo têm muito em comum, assemelham-se igualmente T.C. e Rip Darrow. Vance amava Juan Herrera, mas o preteriu pelo jogador oportunista porque a atraia neste a hipocrisia e a cobiça. Nos westerns de Anthony Mann as mulheres não têm maior destaque, mas com Vance Jeffords o diretor depurou a maldade feminina.

Gilbert Roland
Filme sem heróis - Outro aspecto notável de “Almas em Fúria” são as frases ambíguas com claras conotações sexuais, pouco comuns em westerns e típicas dos dramas noir urbanos. Vance diz a Darrow quando estão em uma charrete: “Importa-se se eu a conduzir? Gosto de saber onde estou indo”, exemplar frase que bem resume o tipo de mulher que ela é. O fortíssimo personagem do tirânico T.C. Jeffords, último trabalho no cinema de Walter Huston que faleceu antes do lançamento do filme, não encontra paralelo em Rip Darrow por culpa exclusiva de Wendell Corey, ator sem o necessário vigor e cinismo para enfrentar Barbara Stanwyck ou o veterano Huston. Mesmo uma frase antológica como a que Darrow diz a T.C. (“Você para de contar mentiras sobre mim e eu paro de dizer verdades a seu respeito”) perde a dimensão que deveria ter. Exceto pelo cerco de T.C. e seus homens à elevação onde está a família Herrera, “Almas em Fúria” é um western praticamente sem ação mas que não deixa de envolver o espectador. A força do filme está nos personagens e nos diálogos O roteiro consegue fugir da previsibilidade pois não há heróis no filme, lembrando que Juan Herrera já fora enforcado. Apenas na sequência final T.C. é morto e o nome Jeffords pode continuar a existir com a união de Vance e Darrow. Ele que lhe havia dito que ela “vive com o ódio; ama odiar”.

Barbara Stanwyck e Walter Huston
Barbara e Walter magníficos - Anthony Mann deixa facilmente perceber o admirável diretor que comprovaria ser em seus filmes seguintes (especialmente os westerns) desenvolvendo com segurança a trama. Muito ajudam no clima criado em “Almas em Fúria” a fotografia soturna de Victor Milner e a excelente trilha sonora de Franz Waxman que se inicia ruidosa para aos poucos se adequar às ações e personagens. Barbara Stanwyck tem uma de suas grandes atuações, certamente a melhor em um western, mais até que a inesquecível Jessica Drummond de “Dragões da Violência” (Forty Guns). Walter Huston é daqueles atores que quando em cena não deixam espaço para os demais com quem contracena. Vigoroso, altivo e rude como um homem do Oeste deveria ser, divide brilhantemente a tela com Barbara que se confessou honrada de atuar ao lado de Huston. Judith Anderson completa o trio de belas atuações num elenco que tem ainda Gilbert Roland, Thomas Gomez, Wallace Ford coadjuvando. Wendell Corey é a nota dissonante desperdiçando um papel ótimo com um desempenho fraco.

Barbara Stanwyck
Almas furiosas - Dez foram os westerns dirigidos por Anthony Mann entre 1950/1958, excetuando propositalmente “Cimarron” (1960), que ele renegou. “Almas em Fúria” não chega ao nível de “O Preço de um Homem” (Naked Spurs) ou “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) mas ocupa lugar de destaque nessa série memorável de faroestes. Niven Busch foi um cowboy de verdade antes de se tornar escritor e, tivesse ele escrito essa história passando-se numa cidade, trama urbana, e o resultado seria ainda melhor. Busch deixou-se seduzir, como foi dito, pelo êxito financeiro descomunal de “Duelo ao Sol”, acreditando repetir a dose o que não aconteceu. Mann não deu o tom de melodrama repleto de cartões postais do filme estrelado por Gregory Peck-Jennifer Jones, preferindo enveredar pelas almas furiosas de seus sombrios personagens. O que sabe fazer como poucos. Cenários, atmosfera e personagens soturnos assustaram fãs de faroestes que, apesar dos atrativos que eram os nomes de Barbara e Huston não prestigiaram como merecia o filme de Mann.

Walter Huston, Barbara Stanwyck e Wendell Corey


26 de dezembro de 2017

DANÇA COM LOBOS (DANCES WITH WOLVES) – O PREMIADO WESTERN DE KEVIN COSTNER


Acima Michael Blake e Kevin Costner ao
receberem o prêmio Golden Globe;
abaixo Blake e Costner anos depois.
A carreira de Kevin Costner como ator (e mesmo como diretor) se assemelha a uma gangorra, tantos são os altos e baixos que conheceu. Essa trajetória oscilou de fracassos de público como “Wyatt Earp”, “Waterworld” e “O Mensageiro” a muitos sucessos, o maior deles “Dança com Lobos”, o qual não só Costner estrelou como foi também sua estreia como diretor. O escritor Michael Blake havia, em meados dos anos 80, elaborado um pré-roteiro que Kevin Costner leu e pediu ao autor para desenvolvê-lo ainda mais, conseguindo que o trabalho fosse editado e publicado em livro. Costner então comprou os direitos cinematográficos da obra que se intitulou “Dances with Wolves” e levantou a nada desprezível quantia de 15 milhões de dólares para produzir o filme. Rodado em grande parte na Dakota do Sul, durante as filmagens houve muita preocupação com o orçamento que foi insuficiente, sendo necessários outros sete milhões de dólares, quantia quase toda desembolsada com recursos do próprio ator-produtor-diretor. Acreditava-se que se desenhava o que acontecera com “Heaven’s Gate” (Portal do Paraíso), o western de Michael Cimino que foi um monumental fracasso, tanto que “Dances with Wolves” era chamado, a boca não tão pequena, de “Kevin’s Gate”. Mais dificuldades ocorreriam com a edição do filme de Costner pois a Orion que iria distribuí-lo não aceitava a metragem de mais de três horas de duração, insistindo em reduzi-lo a 140 minutos. Prevaleceu a vontade de Kevin Costner, então um dos homens mais poderosos de Hollywood e que surpreendeu a todos que não esperavam de um diretor iniciante uma realização que agradasse crítica e público, ainda mais com um faroeste, gênero mais que desacreditado. “Dança com Lobos” rendeu 184 milhões de dólares nos Estados Unidos e um total de 424 milhões de dólares no mundo todo, isto apenas por ocasião de seu lançamento nos cinemas. É, até hoje, o faroeste de maior bilheteria de todos os tempos, bem como o mais premiado, arrebatando sete prêmios Oscar e uma vasta lista de premiações no mundo todo.


Kevin Costner; abaixo Costner
com Graham Greene
A descoberta e o fim de uma forma de vida - Ferido em combate, o Tenente John Dunbar (Kevin Costner) deveria ter seu pé amputado. Ao perceber a intenção dos cirurgiões e num descuido destes, foge da mesa de cirurgia e do acampamento, chegando à frente de batalha em Saint Davis, no Tennessee. Acreditando que morreria de qualquer modo, Dunbar num gesto suicida galopa solitário diante das barricadas sulistas e por milagre escapa às centenas de tiros disparados contra ele. Como prêmio por seu gesto heroico lhe é dada a opção de escolher o posto onde passará a atuar. Escolhe o Forte Sedgewick, local isolado na fronteira onde, ao chegar, Dunbar não encontra ninguém e solitário tem a companhia apenas de seu cavalo e de um lobo que o está sempre observando. Sedgewick fica próximo de um acampamento Sioux, tribo de quem Dunbar se torna amigo após salvar da morte ‘Stand with a Fist’ (Mary McDonnell) uma mulher branca que vive com os índios desde os seis anos. A amizade e a admiração de Dunbar pela forma de vida dos Sioux o leva não só a aprender a língua Lakota dos nativos como a lutar ao lado deles contra os hostis Pawnee. Nesse conflito Dunbar arma os Sioux com rifles e munição pertencente ao Exército, armas que escondera no Forte. Dunbar e ‘Stand with a Fist’ se apaixonam e se casam no ritual Sioux, antecedendo a aproximação do Exército ao Forte Segdewick com ordens de Washington de submeter os nativos à reserva indicada. Dunbar que assistira à matança de búfalos por brancos caçadores de pele, vira a morte de seu cavalo ‘Cisco’ e de ‘Two Socks’, seu amigo lobo, afastou-se com a esposa testemunhando a crueldade do homem branco com seus amigos índios e com isso, mais um capítulo do fim da admirável forma de vida dos nativos.

Kevin Kostner; Rodney Grant e Graham Greene
Revendo a verdade dos fatos - O revisionismo da história do Oeste longínquo norte-americano no cinema teve início discretamente em 1950 com “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway) e com “Flechas de Fogo” (Broken Arrow). Nos anos seguintes muitos outros westerns trataram os índios com dignidade, ao contrário do que era costume em Hollywood. Essa tendência ganhou mais força nos anos 70 e westerns como “Pequeno Grande Homem” (Little Big Man) e “Quando é Preciso Ser Homem” (Soldier Blue) não eram apenas claramente pró-índio como denunciavam as atrocidades cometidas pelos homens brancos naquele que foi o maior genocídio da história da humanidade. Mas foi em 1990, com “Dança com Lobos”, que a indústria cinematográfica norte-americana se rendeu ao movimento revisionista premiando com os mais importantes Oscars o filme de Kevin Costner. E seria impossível que isso não acontecesse porque o ator-diretor conseguiu narrar de forma épica e com imagens poéticas o roteiro de Michael Blake. Filme bastante longo, reflexivo e relativamente com pouca ação considerados seus 181 minutos, “Dança com Lobos” jamais cansa o espectador, mérito de Costner auxiliado pelas elegíacas cinematografia (Dean Semler) e música (John Barry).

Do sublime ao espetacular - Fazer um filme apenas bonito não é tarefa difícil num tempo em que o cinema ganhou contornos do artificialismo dos comerciais de propaganda. Incutir, no entanto, à história a exata dose de lírica melancolia sem cair na armadilha da pieguice é o desafio que cineastas encontram e poucas vezes superam de forma tão bem sucedida quanto se vê em “Dança com Lobos” quando narra o descobrimento da vida na fronteira. Solitário, os momentos em que Dunbar se diverte com suas únicas companhias, o cavalo Cisco e o reticente lobo ‘Duas Meias’ (Two Socks) que o visita, evocam a pureza ainda não maculada pela maldade humana. O contato com os nativos é igualmente enternecedor com toda dificuldade causada pela diferença do idioma. Do sublime ao espetacular é a sequência da caça aos búfalos para garantir o alimento e tudo mais necessário à sobrevivência durante o rigor do inverno. Esses momentos de grande cinema dão o apropriado tom épico a “Dança com Lobos”, mais que mera sequência de ação bem filmada. A curiosidade dos índios e a respeitosa vontade de melhor conhecê-los se afastam da figura imponente que cavalga com o pavilhão norte-americano mostrada quando Dunbar chega à aldeia Sioux. Num filme com poucos momentos de comicidade é inesquecível a singela expressão de Black Shaw (Tantoo Cardinal) ao se deparar com a surpresa de Dunbar ao vê-la fazendo amor com o marido Kicking Bird (Graham Greene) na mesma tenda em que, ao lado, dormem o Tenente e Stands with a Fist. A virtude maior de Costner como diretor foi ter realizado um filme sincero e cativante mesmo apesar dos aspectos que poderiam comprometer a película.

Jimmy Herman (acima) e Maury Chaykin
Selvagens nobres, soldados sórdidos - Nem tudo, no entanto, é perfeito neste western, a começar pela presença do próprio Kevin Costner com seus cabelos longos bem tratados e esvoaçantes realçando uma descabida figura que visa agradar ao público feminino. Costner como um Tenente Dunbar de fazer inveja ao Custer de Errol Flynn contrasta com a simplicidade desprovida de beleza de Mary McDonnell. A história de amor de ambos é forçada demais, ela uma espécie de Cynthia Ann Parker que tenta suicídio ao perder o esposo Sioux, sendo salva, claro pelo providencial e encantador Tenente. Consta que o gesto de Costner abrindo os braços como Cristo enquanto se torna alvo dos soldados confederados foi espontâneo e não estava previsto, mas a imagem mais que emocionar evidencia o egocentrismo do ator. O nada claro suicídio do repugnante Major que recebe e encaminha Dunbar ao Forte Sedgewick é uma sequência patética e deslocada na história. Por fim os Sioux, hábeis no manejo de rifles que eles nunca possuíram, são mostrados excessivamente idealizados enquanto quase todos os soldados são asquerosos, analfabetos, covardes e cruéis.

Kevin Costner e Rodney Grant;
Costner e Mary McDonnell
Convincente como Gary Cooper - Já foi dito que Kevin Costner é o mais próximo que um ator conseguiu chegar de Gary Cooper e essa comparação tem fundamento. Assim como o inolvidável ator de “Matar ou Morrer” (High Noon), Costner não é dotado de maior talento dramático e menos ainda preocupado com os truques interpretativos. Costner é sempre o mesmo, assim como era Cooper e, assim como este, convincente o suficiente para tornar seus personagens simpáticos. Em “Dança com Lobos” Kevin é o grande nome num filme quase que inteira e literalmente seu, tendo apenas a boa atuação de Graham Greene, índio canadense cuja impassibilidade faz lembrar Buster Keaton. Composto em grande parte por índios autênticos, destacando-se entre eles Rodney Grant e Tantoo Cardinal (esta também canadense), além do Cherokee Wes Studi interpretando um líder Pawnee. Mary McDonnell não chega a impressionar como a mulher branca que vive entre os Sioux, mas foi boa escolha justamente por não ser tão bonita.

Wes Studi (à esquerda); Tantoo Cardinal e Mary McDonnell

Kevin Costner e Graham Greene
Western superpremiado - “Dança com Lobos” fez com que os personagens Sioux do filme falassem em Lakota com os diálogos legendados na versão em língua inglesa, aspecto que poderia provocar desinteresse do público, o que obviamente não aconteceu. Outro fato digno de registro foi o cuidado do ator-diretor-produtor com os animais. Nenhum animal se feriu durante as filmagens e Kevin Costner, que dispensou seu dublê nas sequências mais perigosas, também saiu incólume. “Dança com Lobos” recebeu os prêmios Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Cinematografia, Escore Musical, Edição e Som, num total de sete estatuetas. Antes dele o único western a receber um Oscar de Melhor Filme foi Cimarron, em 1931. “Dança com Lobos” arrebatou prêmios em muitos países e pode-se dizer que animou Clint Eastwood a voltar ao gênero com “Os Imperdoáveis”, que também foi premiado com o Oscar de Melhor Filme em 1992. Dos atores famosos de sua geração e mesmo da geração posterior, Kevin Costner é o que mais atuou em faroestes, tendo dirigido e atuado no excepcional “Pacto de Justiça” (Open Range), em 2003 e também na elogiada minissérie “Hatfields & McCoys” (2012). “Dança com Lobos” foi relançado em edição especial (estendida) com 236 minutos, ou seja, mais de uma hora a mais, versão essa não tão bem recebida por nada mais relevante acrescentar à versão original.

Kevin Costner


25 de novembro de 2017

QUANDO É PRECISO SER HOMEM (SOLDIER BLUE) – O EXÉRCITO CRUEL


Oriundo da televisão, Ralph Nelson teve um promissor início de carreira em Hollywood com “Réquiem para um Lutador” e “Uma Voz nas Sombras”. Confirmou seu talento de diretor com “Duelo em Diablo Canyon” (Duel at Diablo) e “Os Dois Mundos de Charly”. Em 1970, no ápice da Guerra do Vietnã, impressionado com atrocidades cometidas pelas tropas norte-americanas, especialmente o massacre de Mi Lay, Nelson decidiu filmar o livro “Arrow in the Sun”, de autoria de Theodore V. Olsen. Autor especializado em histórias de faroeste (escreveu mais de 40), apenas dois livros de Olsen chegaram ao cinema: “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon), otimamente filmado por Robert Mulligan e “Arrow in the Sun” que se transformou em “Soldier Blue”. Ao contrário de “A Noite da Emboscada”, “Soldier Blue” que recebeu o absurdo título nacional de “Quando é Preciso Ser Homem”, resultou num western que em nada engrandece a filmografia de Ralph Nelson, por mais que suas intenções sejam edificantes. 
 À direitaTheodore Victor Olsen (acima),
John Gay e Ralph Nelson.


Candice Bergen
Fugindo para o inferno - Um destacamento de soldados acompanha um capitão tesoureiro do Exército (Dana Elcar) que conduz, além de um cofre com dinheiro, também a noiva de um tenente da Cavalaria. Ela é Cresta Marybelle Lee (Candice Bergen), que capturada pelos Cheyennes viveu dois anos como esposa do chefe Spotted Wolf (Jorge Rivero), conseguindo afinal fugir da tribo. Os Cheyennes liderados por Spotted Wolf atacam o destacamento e apenas Cresta e o soldado Honus Gant (Peter Strauss) escapam com vida. Iniciam então um longo percurso para alcançar o Fort Reunion distante 150 kms e acabam por se envolver amorosamente apesar da resistência do respeitoso soldado. Entre as dificuldades pelas quais os dois passam estão o encontro com o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber (Donald Pleasence) que fere Honus com um tiro e ainda com índios Kiowas. Extenuados encontram um batalhão liderado pelo Coronel Iverson (John Anderson) que se prepara para atacar os Cheyennes. Cresta foge do acampamento militar e avisa Spotted Wolf do ataque iminente. O chefe Cheyenne tenta parlamentar com o Coronel Iverson mas este ordena o ataque à tribo dizimando-a por completo. Cresta assiste desolada ao massacre sem nada poder fazer por seus amigos Cheyennes.

Candice Bergen com Peter Strauss
Romance entre batalhas - Ao final de “Soldier Blue” um narrador lembra que, igualmente ao que se viu no filme que se passa no ano de 1877, em 1864 ocorreu o massacre de Sand Creek, no Colorado, onde os índios viviam pacificamente confinados que foram pelo Governo norte-americano. Os Cheyennes da história de Olsen também acreditavam no tratado de paz e Spotted Wolf ao tentar dialogar carrega, além de uma bandeira branca, a bandeira dos Estados Unidos que recebera quando foram obrigados a viver naquela reserva. A referência explícita à dizimação cometida em Sand Creek e ainda mais a alusão à Guerra do Vietnã confessada pelo diretor necessitariam de um bom enredo para transformar esse fato em longa-metragem. E entre dois momentos maiores de ação no início e final de “Soldier Blue” ocorre o romance entre o soldado com a mulher branca que fora amante do chefe Cheyenne.

Aurora Clavel
O mais selvagem dos filmes - A chamada nos cartazes diz que “Soldier Blue” é o mais selvagem dos filmes. O ataque ao destacamento no início não chega a impressionar pela violência, ao menos na versão lançada oficialmente nos cinemas com duração de 112 minutos. Sabe-se que o filme tinha 135 minutos na versão original que foi vetada pelos distribuidores e reduzida em 23 minutos, o que não é pouco, devido à selvageria exposta na tela. Ainda assim, na parte final quando há o ataque da Cavalaria ao acampamento Cheyenne, índias são curradas, cabeças são decepadas, membros mutilados e uma índia tem seus seios extirpados em repugnantes sequências. Se alguém imaginava que com Sam Peckinpah a violência no cinema havia chegado ao seu limite, assistindo a “Soldier Blue” verifica-se que muita crueldade ainda podia ser filmada. Mas o que sob a direção e edição de Sam Peckinpah virava quase sempre pura arte cinematográfica, neste filme de Ralph Nelson se torna repulsivo, estridente, desnecessário. O contraponto poderia ser o romance entre Cresta e o soldado Honus. Poderia...

Candice Bergen
A irresistível mulher branca - A escolha de bons intérpretes muitas vezes salva um filme enquanto a errada seleção de atores pode comprometer todo um trabalho, por mais que o diretor se esforce para deles extrair razoáveis atuações. Quando surgiu no cinema aos 20 anos, Candice Bergen (filha do ventríloquo Edgar Bergen), impressionou pela beleza e mesmo pela classe que possuía. Além disso revelou-se engajada politicamente sendo uma crítica ao envolvimento norte-americano no Vietnã. Cedo, no entanto, percebeu-se que como atriz os predicados artísticos de Candice não correspondiam a seus traços extraordinariamente perfeitos. Pois é Candice, com toda sua formosura, que passa neste filme por mulher que sofre percalços em sua vida e se torna oportunista, interessando-se pela própria sorte, o que a leva a fugir da tribo que a sequestrou dois anos antes. Claro que o jovem cacique Cheyenne logo a fez sua esposa pois como resistir aos encantos de Candice? O ‘Soldier Blue’ (Honus Gant) da história resistiu até onde pode, ele que na longa odisseia até o Forte Reunion pretendia entregar cresta ‘intocada’ ao seu noivo, o Tenente McNair (Bob Carraway). Na prolongada caminhada o casal tem, entre outras intimidades forçadas, que dormir sob o mesmo e único agasalho de Honus  resiste, até que sucumbe pois apesar de casto e devotado ao regimento é preciso ser homem, como diz o ridículo título nacional.

Candice Bergen com Peter Strauss
Contraponto à irracionalidade - Se Candice é atraente vestida, coberta apenas por um traje curto e mais nada no corpo ela se torna irresistível, menos para o zeloso ‘Soldier Blue’, como Cresta chama Honus. Ralph Nelson e o roteiro de John Gay optaram por mostrar tudo que fosse possível da bela Candice que só é substituída por um dublê de corpo numa sequência em que suas nádegas estariam à mostra. Nelson talvez tenha esquecido que a sugestão é sempre mais forte que a exposição, além de visivelmente querer dar a seu western um cunho fortemente erótico. Insistir no lirismo do idílio entre Cresta e Honus com a insipidez do par central seria mesmo perda de tempo e o romance que poderia ser o contraponto à irracionalidade da guerra não consegue emocionar. Mesmo fugindo do modo de vida dos Cheyennes Cresta admira os índios e faz tudo para salvá-los do iminente massacre. Honus só enxerga a bestialidade dos homens de túnica azul quando os vê em ação dizimando a tribo Cheyenne até que nenhum índio respire mais.

Donald Pleasence e John Anderson
“Por quê?” - Donald Pleasence é o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber, que ri do próprio nome (‘Pepino’) enquanto municia os Cheyennes com rifles. O ator repete o tipo desvairado sem que consiga impressionar como em outros filmes. John Anderson com um chapéu típico do exército britânico em suas conquistas na Índia é uma réplica de George Armstrong Custer, tanto em sua excentricidade quanto na egolatria. A música de Roy Budd tenta diversos estilos, desde Elmer Bernstein até Ennio Morricone, não desprezando nem mesmo uma soprano a la Edda Dell’Orso, claro, sem o brilho dos imitados. A cantora canadense Buffy Sainte-Marie, conhecida por sua canções de protesto compôs a canção-título que, ao contrário de “Up Where You Belong”, também composição sua, fez enorme sucesso e recebeu o Oscar e Melhor Canção em 1982. O que não falta nas sequências de batalha são as características quedas de cavalos mas sem o know-how de um diretor de segunda unidade do calibre de um Cliff Lyons. As lutas são inconvincentes, assim como as mortes violentas durante a chacina comandada pelo Coronel Iverson. O fecho exato para este western são os patéticos gritos do soldado Honus ao final exclamando: “Por quê? Por quê?” indicando total falta de inspiração de roteiro e direção.