UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de julho de 2017

A MORTE NÃO MANDA RECADO (THE BALLAD OF CABLE HOGUE) – SAM PECKINPAH CÔMICO E ROMÂNTICO


Sam Peckinpah
Quando tiveram início as filmagens de “A Morte Não Manda Recado”, em janeiro de 1969, Sam Peckinpah não havia ainda tido o reconhecimento da crítica por seu último filme, “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). Esta obra-prima filmada em 1968 somente estreou em junho de 1969. Mesmo assim a Warner Bros. deu mostras de uma inesgotável paciência com o diretor que já havia estourado em muito o orçamento de seu filme anterior. Com cronograma de filmagens previsto para 36 dias e orçamento de 880 mil dólares, “A Morte Não Manda Recado” só foi finalizado em abril ao custo de três milhões e setecentos mil dólares, ou seja, quase três milhões a mais do que o inicialmente previsto. Além das intempéries criadas por Peckinpah, foram muitas as tempestades de areia que ocorreram nas locações no deserto mexicano e muitos os dias em que as filmagens foram suspensas o que elevou as despesas e também a conta na cantina em Sonora, onde Peckinpah e sua turma se encharcavam de vodka e tequila. Sam estava mais enlouquecido, desumano e autoritário que nunca, tendo despedido mais de 30 pessoas da produção aos quais humilhava antes de demitir. Até mesmo sua filha Sharon, incumbida de fazer um documentário sobre as filmagens, espécie de making-of, não suportou as atitudes do pai que sadicamente sacrificou cobras, coelhos e lagartos. O lagarto mostrado no início do filme foi morto com um tiro, o que definitivamente revoltou Sharon. Problemas na produção, estouro de orçamento e comportamento opressivo de Peckinpah ocorreram também em seu filme anterior que resultou num marco cinematográfico. O mesmo, no entanto, não aconteceu com “A Morte Não Manda Recado”.


Jason Robards; Stella Stevens;
L.Q. Jones e Strother Martin
O mais precioso bem do deserto - Peckinpah obtivera em 1967 os direitos de filmar a história “The Ballad of Cable Hogue”, de autoria de John Crawford e Edmund Penney. Pretendendo dar um tom de comicidade ao roteiro Sam inseriu muitas situações que, entendeu ele, tornariam o filme mais engraçado ao contar como o nômade Cable Hogue (Jason Robards) é abandonado no deserto por seu ex-parceiros Bowen (Strother Martin) e Taggart (L.Q. Jones). Sem cavalo, arma, comida e principalmente sem água, Hogue se vê diante da morte certa mas milagrosamente descobre um poço justamente no trajeto por onde passam diligências. Hogue registra a área em seu nome e torna o local uma parada obrigatória onde passa a vender o tão precioso líquido. Indo à cidade Hogue conhece Hildy (Stella Stevens), uma prostituta que perseguida pela população acaba se juntando ao próspero empreendedor. O pregador Joshua (David Warner) vive por um tempo também no posto de Hogue, mas tanto ele quanto Hildy não permanecem ali. Ela há tempos tencionava viver em São Francisco e Joshua devia seguir em busca de almas necessitadas de seu amparo espiritual, de preferência mulheres bonitas. Tempos depois uma diligência faz uma parada e entre os passageiros estão Bowen e Taggart. Este último acaba morto por Hogue que consuma parcialmente sua vingança, nomeando Bowen como novo administrador da parada, isto porque Cable Hogue decide abandonar o negócio. Essa decisão se deu em razão de Hogue perceber que novos veículos passam a trafegar pela estrada concorrendo com as diligências. São os automóveis e um deles atropela mortalmente Hogue que sucumbe ironicamente aos novos tempos.

Jason Robards
Mudança de estilo - O que levou Sam Peckinpah a se interessar pela história do miserável que se torna empreendedor foi a narrativa original tocar em seu tema preferido que é o fim dos tempos do tão decantado pelo cinema e literatura Velho Oeste. O crepúsculo da existência daqueles homens endurecidos pela forma de vida que levavam permeou “Parceiros da Morte” (The Deadly Companions), “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country) e “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). A triste história de Cable Hogue seria mais uma possibilidade de Peckinpah discorrer alegoricamente sobre o assunto que tanto o atraia. Mas o diretor queria mostrar que era também capaz de fazer um filme engraçado, uma quase comédia com aspectos românticos sem deixar de lado o conflito de tempos em transformação. E a violência que era a marca de seus filmes foi amenizada, ainda que não totalmente eliminada, e sendo mostrada de forma mais pilhérica que dramática. Afinal Peckinpah vinha sendo chamado de ‘o John Ford dos tempos do Vietnã’, rótulo que lhe caiu admiravelmente após o violento e ao mesmo tempo poético “Meu Ódio Será Sua Herança”. Ford emocionava as plateias com os momentos românticos e engraçados de seus westerns e Peckinpah devia isso a seu público.

David Warner; Strother Martin
e L.Q. Jones
Pregador e bandidos divertidos - Os pregadores dos filmes de Peckinpah (quase sempre encarnados por R.G. Armstrong) eram irados fanáticos religiosos e em “A Morte Não Manda Recado” o pregador interpretado por David Warner é também fanático, mas não pelo que pregam os textos bíblicos e sim por mulheres. Podem ser até casadas, mas a condição essencial é serem bonitas e carentes de conforto espiritual que o libidinoso pastor de almas, com facilidade transforma em conforto licencioso através de versículos que ele mesmo cria. Não menos engraçada que o pregador é a dupla de escroques que atraiçoa Cable Hogue e mais tarde lhe cai em mãos para consumar a vingança, interpretados pelo pândego Strother Martin e pelo sempre psicótico L.Q. Jones. Nem o mais imaginativo roteirista do mais grotesco western spaghetti seria capaz de forjar a armadilha que Hogue prepara para ambos, no próprio buraco que escavaram em busca de dinheiro e no qual Hogue atira sua coleção de cobras. Completa a comicidade deste western a simbólica tragédia final com Hogue desesperadamente tentando conter o pesado automóvel que teve os freios soltos e que o atropela e mata.

Stella Stevens e Jason Robards
Interlúdio romântico - Se Peckinpah foi bem sucedido com os momentos engraçados da história de Cable Hogue, o mesmo não ocorreu com o romance entre o rato do deserto e a prostituta de coração de ouro. Jason Robards e Stella Stevens desempenham brilhan-temente seus personagens mas a história de amor entre ambos não funciona a contento. Assim como ocorreu em “Butch Cassidy e Sundance Kid”, filmado um ano antes e que será sempre lembrado pelo interlúdio romântico ao som de “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, o idílio entre Hogue e Hildy é emoldurado por uma canção. “Butterfly Mornin’s” é cantada por Hildy e Hogue e nem de longe é palatável como o sucesso musical de Burt Bacharach e Hal David. Não faltou atrevimento a Peckinpah que mostra Stella Stevens inteiramente nua numa longa e deliciosa sequência de banho, para alegria dos espectadores, sequência que pouco acrescenta à aventura amorosa do casal. Muito melhor que o encantamento de Hogue e Hildy é o ciúme que toma conta dele quando o pregador volta seu olhar impúdico para a prostituta.

Stella Stevens e Jason Robards; Stella Stevens

Stella Stevens

David Warner e Jason Robards
Western arrastado e com pouca ação - “A Morte Não Manda Recado” tem duração de 121 minutos que parecem se alongar em alguns momentos tornando o filme um tanto arrastado. Mestre da ação, Peckinpah não cria nenhum momento mais trabalhado de confronto, mesmo porque o roteiro não foi pensado para esse tipo de filme. Em se tratando, porém, desse diretor este seu filme frustra as expectativas e nem toda comicidade e enlevo dos momentos entre Hildy-Hogue são suficientes para manter o ritmo ideal. Não faltam as belas paisagens que a câmara de Lucien Ballard captura primorosamente mas ressente-se da música de Jerry Fielding, compositor preferido de Peckinpah. As três canções ouvidas no filme são de autoria de Richard Gillis, duas delas musicadas por Jerry Goldsmith, que compôs a trilha incidental. Nenhuma das canções é inspirada o suficiente para tornar marcante “A Morte Não Manda Recado”.

Stella Stevens
Inesquecível Stella Stevens - Acusado muitas vezes de imitar Humphrey Bogart, a quem lembrava bastante fisionomicamente, tendo inclusive se casado com Lauren Bacall, a viúva de Bogey, Jason Robards é um magnífico ator que brilha como Cable Hogue. Faz esquecer o empostado ‘Cheyenne’ de “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West). Stella Stevens como Hildy tem o melhor desempenho de sua carreira não muito pródiga em boas oportunidades como esta que Peckinpah lhe deu. Delicadamente sensual e inocentemente divertida, Stella está inesquecível como a meretriz que conquista Hogue. David Warner passa, por vezes, do ponto exagerando como o pregador vigarista. Mas seu personagem é ótimo e seu discurso fúnebre memorável. O grupo de atores que formava uma espécie de Peckinpah Stock Company tem destaque maior para Strother Martin com seu olhar de covarde sempre pronto para dar um bote traiçoeiro. L.Q. Jones, Slim Pickens, R.G. Armstrong e Gene Evans completam esse time especial de coadjuvantes. Último filme de Peter Whitney que viria a falecer em 1972, aos 55 anos de idade.

Jason Robards
Lançamento de segunda categoria - Não poucos críticos consideram “A Morte Não Manda Recado” o melhor filme de Sam Peckinpah, o que é um exagero. E assim também não pensaram os executivos da Warner Bros. que relegaram este western a uma distribuição em cinemas de segunda categoria e com insignificante publicidade. Diante de seus melhores filmes, ambos faroestes – “Pistoleiros do Entardecer” e “Meu Ódio Será Sua Herança” – este “A Morte Não Manda Recado” é um filme menor e Peckinpah não tencionava repetir a grandeza de seu western anterior mesmo porque sabia que o material que tinha em mãos não tinha a mesma magnitude. Com a balada de Cable Hogue Sam Peckinpah fez aquilo que mais gostava de fazer, falar do fim do Oeste mítico. Pena que com um filme que não se tornou lendário como o Velho Oeste.


David Warner, Slim Pickens, Jason Robards, Peter Whitney e R.G. Armstrong;Stella Stevens e Jason Robards

25 de junho de 2017

BUCKING BROADWAY – PRIMEIROS PASSOS DE JOHN FORD COMO DIRETOR DE WESTERNS


Acima Carl Laemmle e Harry Carey;
abaixo os irmãos Ford - Francis e John
Se Francis Ford foi o responsável por encaminhar seu irmão mais novo Jack Ford no cinema, Harry Carey teve igual ou maior importância. Carey era já um ator de razoável sucesso quando insistiu com Carl Laemmle, dono da Universal, para dar oportunidade ao irmão de Francis para dirigir filmes. Jack Ford vinha atuando como ator desde 1913 e aos 23 anos, em 1917, estreou como diretor fazendo cinco ‘shorts’ (filmes de dois rolos), dois deles estrelados por Harry Carey. Nesse mesmo ano Ford dirigiu quatro westerns com duração próxima de 60 minutos (cinco rolos) todos tendo Harry Carey como astro. Estava iniciada uma longa parceria e grande amizade que estremeceu quando se percebeu que Jack Ford era um diretor competente. Ford que ganhava 300 dólares por semana também percebeu isso e pediu para ganhar algo próximo do que ganhava Harry Carey (2.250 dólares semanais), o que desgostou o ator. Enquanto a carreira de Jack Ford, agora assinando seus filmes como ‘John Ford’, se consolidava, a de Harry Carey entrava em decadência. Todos os filmes que fizeram em parceria foram dados como desaparecidos, até que uma cópia de “O Último Cartucho” (Straight Shooting) foi descoberta em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia. Na década de 70, na França, um colecionador encontrou uma cópia de “Bucking Broadway” e esses dois filmes de 1917 são os únicos remanescentes da fase inicial daquele que viria a ser o mais extraordinário cineasta do gênero western.


Harry Carey e Molly Malone;
cowboys invadindo a grande cidade
Um cowboy em Nova York – Olive Carey afirmou em entrevista que Harry Carey e John Ford com sinopses dos filmes em mãos iam a cavalo para os locais de filmagem e lá desenvolviam o roteiro improvisando a maior parte das sequências a serem filmadas. Com “Bucking Broadway” não foi diferente nesta história passada no Wyoming onde o cowboy Cheyenne Harry (Harry Carey) pede a jovem Helen Clayton (Molly Malone) em casamento e o rancheiro Ben Clayton (L.M. Wells), pai da moça, consente o matrimônio. Nem Ben e nem Cheyenne contavam, porém, com a chegada do inspetor federal Eugene Thornton (Vester Pegg) que veio à fazenda para inspecionar a criação de animais. Thorton convence Helen a fugir com ele para Nova York e iludida ela abandona os planos de uma vida simples no Oeste em troca da agitação da metrópole. Inconformado Cheyenne parte à procura da ex-noiva que em pouco tempo descobre o verdadeiro caráter de Thornton, homem que bebe demais e que se torna violento, chegando a agredi-la. É quando Cheyenne os encontra e por sorte seus amigos cowboys do Wyoming estavam também em Nova York, acompanhando uma numerosa venda de cavalos. Ao defender Molly, Cheyenne é atacado pelos grãfinos amigos de Thornton mas com a providencial ajuda dos demais cowboys surra os esnobes e revive o amor com Helen, com quem retorna para os prados do Wyoming.

Harry Carey;abaixo Vester Pegg
Cowboy autêntico - História mais simples e previsível que a de “Bucking Broadway” é impossível, mas naquelas primeiras décadas do cinema esse tipo de filme atraía e agradava demais ao público, tanto que Harry Carey disputava com William S. Hart a primazia de ser o cowboy favorito do cinema. Rudes e taciturnos como um cowboy deve ser, Hart e Carey tinham ainda em comum o fato de terem deixado há muito de ser jovens. O idílio entre Cheyenne Harry e a filha do rancheiro funciona como mero pretexto para a segunda parte de “Bucking Broadway” passada em Nova York (mas filmada em Los Angeles) e ressaltando a gritante diferença entre a vida saudável no rancho e a luxúria da cidade. Eugene Thornton chega ao rancho de Ben Clayton em um automóvel, modernidade que contrasta com os muitos cavaleiros e suas atividades como vaqueiros. Seu antipático, fino e bem cuidado bigode, típico dos trapaceiros, contrasta com o vasto mustache de Ben Clayton. Entre as pessoas da roda de Thornton em Nova York está o casal de vigaristas que rouba Cheyenne Harry, sem falar no desregramento dos convivas da festa que se desenvolve. E sabe-se lá o quanto mais deixou de ser visto devido aos tantos cortes impostos pela censura, um capítulo à parte neste filme.

Molly Malone; abaixo a grande luta
Censura implacável em 1917 - Gertrude Astor era uma atriz de grande destaque à época e sua participação em “Bucking Broadway” ficou totalmente comprometida e perdeu o sentido, isto devido à censura imposta ao filme. Ela interpreta um personagem cúmplice de Thornton que aliciam moças para explorá-las, personagem esse que simplesmente desaparece da trama. Os muitos cortes exigidos pelos censores excluíram mulheres durante a festa usando trajes provocantes deixando a mostra boa parte de seus corpos, além das atitudes dos convivas embebedando-se avidamente. Outros cortes sofridos por “Bucking Broadway” se deram em razão da violência do burlesco confronto entre cowboys e os convidados da festa, entre elas Cheyenne Harry aplicando um justo corretivo no velhaco Eugene Thornton. Tantos cortes certamente prejudicaram a narrativa e melhor compreensão da crítica aos costumes que o filme pretendia fazer.

L.M. Wells
O cowboy Cheyenne Harry – Em 1917 Harry Carey se aproximava dos 40 anos de idade, ele que sempre teve aparência de homem maduro, o que não criava maior embaraço pois raros eram os atores mais jovens nos elencos. De expressão forte, Carey se impunha como cowboy valente, determinado e honrado. Molly Malone, então com 29 anos é a inocente garota que sucumbe às promessas do vilão interpretado por Vester Pegg. Tanto Molly Malone quanto Vester Pegg atuam também em “O Último Cartucho”. L.M. Wells é um daqueles tipos característicos marcantes com sei volumoso bigode branco e cabeleira igualmente branca. O cowboy Buck Hoover é interpretado por William Steele, ator que quase 40 anos depois participaria de “Rastros de Ódio” (The Searchers). Nesse western que é a obra-prima de John Ford, William Steele interpreta o rancheiro Nesby.

William Steele com Harry Carey;
 à direita L.M. Wells, Molly Malone, Vester Pegg e William Steele

O jovem John Ford
Ford jovialíssimo - Ambientado no Wyoming e com a parte final transcorrendo em Nova York, “Bucking Broadway” foi inteiramente rodado na Califórnia. É um filme que merece ser visto não só por ser um trabalho do jovem John Ford mas também porque é, igualmente, um raro western com Harry Carey quando ele vivia o cowboy Cheyenne Harry. Se alguma restrição pode ser feita é quanto ao inegável preconceito racial que surge com a presença de um negro bem vestido comportando-se como um dandy e ainda um mexicano que covardemente foge numa desavença com outro cowboy. Sendo esses personagens justamente um negro e um latino Ford demonstra claro preconceito. A cópia encontrada na França deste filme dado como perdido é ótima, tendo sido restaurada pela Cinemateca Francesa, órgão que dá a devida importância a este tão apreciado gênero cinematográfico.

Esta cópia foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Jose Flávio Mantoani.

à diretia o grupo de cowboys no rancho e abaixo o dandy negro

7 de junho de 2017

A NOITE DOS PISTOLEIROS (ROUGH NIGHT IN JERICHO) – DEAN MARTIN COMO HOMEM MAU


Dean Martin, um ator que irradiava simpatia por todos os poros, jamais havia interpretado um homem mau no cinema e isto veio a acontecer em 1967, no western “A Noite dos Pistoleiros” (Rough Night in Jericho). A história de autoria de Marvin H. Alpert teve roteiro do próprio Alpert em parceria com Sidney Boehm, de quem se poderia esperar boa dose de violência. Boehm foi o roteirista de “Os Corruptos” e “Sábado Violento”, dois filmes marcantes por suas cenas de extrema violência, isto quando Hollywod, ainda sob o Código Hays, evitava chocar as plateias. Mas não é o vilão Dean Martin quem participa da mais brutal sequência deste western e sim Slim Pickens em luta com George Peppard. Mesmo Peppard nunca teve no cinema a imagem de homem agressivo e parece que tanto Martin quando Peppard estão fora de seus personagens costumeiros. O western norte-americano começava a mudar e “A Noite dos Pistoleiros”, dirigido por Arnold Laven, indica essa direção que Sam Peckinpah norteava com seus filmes. Vale lembrar que o faroeste anterior de Laven foi “Assim Morrem os Bravos” (The Glory Guys), com roteiro de Peckinpah.


Dean Martin; George Peppard
51% de tudo - Alex Flood (Dean Martin) e Dolan (George Peppard) são dois ex-homens da lei que cansados de arriscar a vida a troco de um salário irrisório decide mudar de vida. Flood se instala em Jericho onde passa a dominar a vida local sendo sócio de tudo que gere dinheiro. Contenta-se com 51% de qualquer coisa, o suficiente para ser respeitado por todos, inclusive pelo bando que comanda. Flood enforca sumariamente seus desafetos e muda o xerife que não o obedece, tencionando ser sócio majoritário da companhia de diligências da viúva Molly Lang (Jean Simmons). Dolan chega a Jericho numa diligência da empresa de Molly em companhia de Ben Hickman (John McIntire), outro ex-homem da lei, sendo no caminho intimidado por Flood, que dispara várias vezes contra a diligência. Dolan se interessa por Molly e para piorar as coisas ganha de Flood no pôquer, o suficiente para que seja intimado a deixar a cidade. Tudo muda quando Flood destrói o armazém de Ryan (Richard O’Brien), o que faz com que Dolan convença alguns homens a enfrentar o poderoso pequeno exército de Flood. Emboscado este vê seu bando ser dizimado e foge, sendo perseguido por Dolan que o enfrenta num confronto mortal.

Violência exacerbada - “A Noite dos Pistoleiros” não é um western com muita ação, resumindo-se a três sequências os momentos de maior emoção, uma delas excepcionalmente bem filmada. É quando Yarbrough (Slim Pickens), braço direito de Flood e que faz uso de um chicote quando necessário, enfrenta Dolan. Ao contrário das lutas travadas com punhos, os dois homens usam o que estiver à mão e a morte de Yarbrough é animalesca com Dolan extravasando sua fúria incontida. Yarbrough apertando o pescoço de Molly com um seus enormes braços diz que poderá quebrar o pescoço da mulher com mais um mínimo aperto. Mesmo a sequência em que Flood dá uma lição a um provocador em seu saloon, bate com a cabeça do infeliz várias vezes contra o balcão, algo poucas vezes visto no western e menos ainda porque é Dean Martin quem comete a brutalidade. Flood querendo saber se Molly dormiu ou não com Dolan e não obtendo resposta, desfere violentos tapas na mulher em mais uma sequência de selvageria.

George Peppard em luta Slim Pickens

Jean Simmons e Dean Martin
Sensação de ‘já vi esse filme’ - O roteiro repete lugar comum de tantos e tantos westerns com a chegada de um forasteiro que provoca uma sublevação contra o tirânico opressor. A inferioridade numérica é compensada pela astúcia do herói, aqui um profissional de pôquer que considera todas as probabilidades, conforme repete várias vezes. A disputa pela mesma mulher, uma bela e arrojada viúva como sempre, completa o quadro que leva ao previsível desfecho. Salvaria o filme diálogos que fossem mais divertidos uma vez que a ironia perpassa todas as conversas travadas entre Dolan e Flood. O que se vê, no entanto, são colóquios maçantes na maior parte do filme. Ben Hickman é quem faz subir a qualidade não só interpretativa como, coincidentemente dos diálogos. E claro, a presença do violento Yarbrough.

Jean Simmons
A beleza madura de Jean Simmons - Fora de seu padrão interpretativo, Dean Martin faz o que pode para tornar o abusivo Flood convincente como vilão. George Peppard tenta interpretar um jogador elegante ao estilo daqueles que ninguém melhor que Henry Fonda era capaz de compor. Jean Simmons já sem o frescor de sua beleza tantas vezes vista no cinema sempre agrada, boa atriz que era. Em uma sequência Jean entorna garrafa e meia de whisky com George Peppard, ela que na vida real teve sérios problemas com a bebida. Em nenhum filme do qual participa, John McIntire deixa de impressionar e neste, mais uma vez, ele mostra que era um dos grandes característicos do cinema norte-americano. Slim Pickens desta vez menos espalhafatoso tem marcante participação como capanga de Dean Martin.

Dean Martin
Centenário de nascimento - Realizado no período de transição que precedeu a inequívoca influência dos westerns-spaghetti, “A Noite dos Pistoleiros” é um faroeste que guarda a influência do modelo que Hollywood consagrou ao mesmo tempo em que busca renovar a linguagem do gênero com uma dose maior de violência. Nada memorável, seja na filmografia de Arnold Laven ou na dos principais intérpretes, este filme recebeu uma única indicação nas dezenas de Top-Ten Westerns publicados neste blog. Quem o listou foi o cinéfilo José Correia Dantas que admirava o estilo de atuar de Dean Martin, tanto que procurava, nas reuniões da confraria paulistana de westernmaníacos, se trajar como esse grande astro nascido no dia 7 de junho de 1917. Exatamente na data da publicação desta postagem transcorre portanto o centenário de nascimento do querido ator-cantor nascido como Dino Paul Crocetti.



25 de maio de 2017

BRAVURA INDÔMITA (TRUE GRIT) – JOHN WAYNE EM IMORTAL CARACTERIZAÇÃO


Acima Charles Portis e seu livro; abaixo
Glen Campbell, Kim Darby, Henry
Hathaway, John Wayne e Hal B. Wallis
O livro de Charles Portis “True Grit” alcançou imediato sucesso após seu lançamento em 1968, tendo sido antes, nesse mesmo ano, publicado em capítulos na lendária “The Saturday Evening Post”. Quem leu logo pensou: ‘Que belo faroeste esta história vai dar’ e os direitos passaram a ser disputados quase em um leilão, levando a melhor o produtor Hal B. Wallis. John Wayne também leu “True Grit” e procurou Wallis oferecendo-se para interpretar Reuben J. ‘Rooster’ Cogburn, personagem principal.  O produtor respondeu que só pensara nele, Duke, para interpretar o velho delegado caolho e com bigode. Wayne disse que usar tapa-olho ele até usaria, ainda que não com muito entusiasmo, mas bigode de jeito nenhum. Para interpretar o ranger texano o próprio Charles Portis sugeriu a Wallis seu conterrâneo do Arkansas Glen Campbell, cantor que vinha emplacando um sucesso após o outro na country-music. Henry Hathaway foi escolhido para dirigir porque ele e o Duke eram grandes amigos, sendo Hathaway o único diretor que Wayne respeitava num set de filmagens (além é claro de John Ford). Problema maior seria a intérprete da menina Mattie Ross, de 14 anos na história, papel que a princípio seria de Mia Farrow que recusou ser dirigida pelo pouco gentil Hathaway. Kim Darby, atriz de 21 anos, foi vista na TV por Hal B. Wallis que determinou ser ela a companheira de Wayne e Campbell no filme cujas filmagens começariam em setembro de 1968, com a maior parte das locações no Colorado.


Kim Darby
A menina e os homens da lei - Com roteiro de Marguerite Roberts “True Grit” intitulado “Bravura Indômita” no Brasil conta como o pai de Mattie Ross (Kim Darby) é assassinado por Tom Chaney (Jeff Corey). A jovem querendo justiça procura o delegado Rooster Cogburn (John Wayne) para capturar Chaney. Surge então o Texas Ranger La Boeuf (Glen Campbell) que ajuda na busca do assassino que se une ao bando chefiado por Ned Pepper (Robert Duvall). Rooster Cogburn gosta de agir sozinho e aceita a contragosto a companhia de La Boeuf, fazendo de tudo para desestimular Mattie a acompanhá-lo, o que não consegue pela obstinação da jovem. Durante a longa perseguição ao bando de Ned Pepper são mortos os bandidos Quincy (Jeremy Slate) e Moon (Dennis Hopper), antes que o trio encontre Pepper e seus homens. Tom Chaney tenta capturar Mattie mas é alvejado pela jovem e mesmo assim o Chaney fere gravemente La Boeuf. Rooster sozinho enfrenta Ned Pepper e mais três bandidos, conseguindo matá-los com a ajuda de La Boeuf que não resiste aos ferimentos.

John Wayne, Kim Darby e Glen Campbell

John Wayne
A arremetida de John Wayne - “Bravura Indômita” obteve grande sucesso de público mesmo sem ser um western superior no nível de “Os Cowboys” (The Cowboys) e “O último Pistoleiro” (The Shootist), para lembrar apenas a fase final de John Wayne. E o Duke recebeu, finalmente, o Oscar de Melhor Ator mesmo sem ter tido uma atuação portentosa como teve em “Rio Vermelho” (Red River) e “Rastros de Ódio” (The Searchers). O Oscar premiou uma das mais brilhantes carreiras que um ator poderia ter e “Bravura Indômita” é um filme que merece ser visto especialmente pela fantástica sequência do confronto entre Rooster Cogburn e os quatro bandidos. Num espaço aberto Rooster avisa que vai prender Ned Pepper e este debochadamente responde: “Você é confiante demais para um homem gordo e caolho...”. O delegado então grita: “Prepare-se seu desgraçado” e prende as rédeas de seu cavalo com os dentes e com um rifle em uma das mãos e um revólver na outra galopa em direção ao quarteto também armado. Na arremetida, como se fosse um cavaleiro medieval num torneio clássico, Rooster dispara certeiramente contra os bandidos e a sequência na tela somente parece crível por ser John Wayne em ação. Esse momento é um dos mais marcantes entre os tantos westerns do Duke e se tornou instantaneamente antológico no gênero. Mesmo com toda grandiosidade da sequência o filme de Hathaway prossegue em busca de mais emoção com o espectador ainda recuperando o fôlego com a cavalgada de Rooster Cogburn.

Kim Darby e John Wayne
Os problemas com Kim Darby - “Bravura Indômita” não foi um filme fácil para John Wayne, isto porque cedo, durante as filmagens, percebeu que não se daria bem com Kim Darby. Isso até foi bom porque a pouca ou nenhuma simpatia entre ambos foi transferida para a hostilidade que permeia muitos dos diálogos de Rooster com Mattie. Acostumado a intimidar com sua presença e tamanho até mesmo atores tão famosos e consagrados como ele, Wayne não compreendia como uma atriz praticamente principiante no cinema podia tratá-lo sem a devida e merecida reverência. Para piorar as coisas. Kim havia dado à luz meses antes e vivia às turras com seu marido, o ator James Stacy. Algo que o Duke nunca aceitou foi alguém levar para os sets de filmagens seus problemas pessoais, profissional extremado que ele era. Por outro lado, Wayne e Glen Campbell desenvolveram ótima amizade.

Kim Darby
Personagem cansativa - Henry Hathaway imprimiu um ritmo lento a “Bravura Indômita” e quando isso acontece os diálogos devem ser suficientemente interessantes para prender a atenção do espectador. Não é, no entanto, o que aconteceu com o roteiro de Marguerite Roberts, até porque a petulância e obstinação de Mattie Ross são exagerados e tornam a personagem cansativa. Um pouco mais inspirados são os momentos com o gordo e beberrão Rooster Cogburn, como quando ele dispara contra um ‘desobediente’ rato numa indisfarçável alegoria à ideologia política do homem John Wayne. Num faroeste bastante tradicional, com 128 minutos de duração, Hathaway reservou para a meia hora final os momentos mais empolgantes, preenchendo boa parte do filme com exuberantes tomadas dos cenários do Colorado, obra do cinegrafista Lucien Ballard. Neste mesmo Ballard foi o diretor de fotografia de “Bravura Indômita” e de “Meu Ódio Será Sua Herança”, faroeste inteiramente opostos em sua concepção. A música de Elmer Bernstein para o filme de Hathaway não foge do estilo desse grande maestro-compositor, embora careça de maior inspiração e principalmente da falta de um tema principal mais marcante.

Robert Duvall
Desperdício de talentos - O elenco de personagens secundários é uma atração à parte, com destaque para Robert Duvall, Dennis Hopper, Jeff Corey, Strother Martin e Jeremy Slate. O roteiro não desenvolve a contento esses personagens e a aparição de Hopper e Slate são rápidas, enquanto a Robert Duvall nenhuma oportunidade é dada para demonstrar o excepcional ator que sempre foi. Muito boa, embora também curta, a saborosa participação de Strother Martin diante de Kim Darby. Outros bons atores com cenas curtas são James Westerfield como o Juiz Parker e John Doucette. Vivido por John McIntire em “Justiceiro Implacável”, a segunda aventura de Rooster Cogburn, o Juiz Parker discute, briga Glen Campbell desperdiça boa oportunidade de se lançar como ator tornando quase irrelevante seu personagem que no livro é mais destacado. Glen Campbell interpreta a canção-título executada durante a apresentação dos créditos.

Strother Martin e Jeff Corey

John Wayne
John Wayne arrasador - Marguerite Roberts foi uma roteirista enquadrada na lista negra de Hollywood por se recusar a citar nomes de colegas envolvidos com comunistas, no tempo da caça às bruxas. Jeff Corey também foi blacklistado e proibido de atuar no cinema por algum tempo. Reconhecido extremista de direita, John Wayne gostou de interpretar Rooster Cogburn conforme imaginado por Marguerite e com as falas que ela concebeu. Como o delegado beberrão Wayne foge dos tipos quase sempre iguais que vinha interpretando e mais uma vez demonstra que tinha sim qualidades de ator muito mais amplas que os limites que lhe imputaram durante quase toda a carreira. Vigoroso, bronco, descortês com quase todos e implacável com bandidos e ratos, Cogburn é distinto de delegados convencionais com o tapa-olho que além de tudo não deixa de ser uma comovente homenagem a John Ford. Só não o chamem de Reuben J. Cogburn que aí ele fica ainda pior, ou no caso, melhor...

Warren Oates
True Grit na TV - “Bravura Indômita” não teve propriamente uma continuação, mas sim o personagem Rooster Cogburn se repetiu em uma nova aventura no referido “Justiceiro Implacável”, na memorável parceria entre John Wayne e Katharine Hepburn. Em 1978 foi produzido o TV movie “True Grit – A Further Adventure” estrelado por Warren Oates, o bom ator que não conseguiu chegar perto de John Wayne. E quem chegaria?




14 de maio de 2017

JUSTICEIRO IMPLACÁVEL (ROOSTER COGBURN) – JOHN WAYNE E A ADORÁVEL LADY HEPBURN


Acima Martha Hyer, Hal B. Wallis e John Wayne;
abaixo Katharine Hepburn e Hal B. Wallis
Ao receber o Oscar de Melhor Ator por sua atuação em “Bravura Indômita” (True Grit), John Wayne declarou que se soubesse teria usado um tapa-olho anos antes. O sucesso desse filme foi tão grande que o produtor Hal B. Wallis teve a ideia (óbvia) de ressuscitar o personagem do xerife beberrão interpretado novamente pelo Duke, encomendando a Charles Portis, autor da história original de “True Grit”, não uma sequência, mas sim uma nova aventura com Rooster Cogburn. John Wayne gostou da nova história em que o envelhecido xerife se junta a uma missionária para capturar um bando de foras-da-lei e pediu a Hal B. Wallis que contratasse Ingrid Bergman para coestrelar o novo western com ele. A atriz sueca não pode aceitar o convite que acabou nas mãos de Katharine Hepburn e esperava-se que John Wayne, que tinha a prerrogativa de aprovar a ‘leading-lady’, recusasse a participação de Kate, como havia feito com o diretor Richard Fleischer, escalado inicialmente para dirigir. Wayne nunca esqueceu e não perdoou Fleischer por este ter declinado da direção de “Fúria no Alasca” (North to Alaska), 15 anos antes. Katharine Hepburn, detentora (ante então) de três prêmios Oscar e oito outras indicações, sempre foi conhecida por sua visão política liberal, antagônica à do radical de direita John Wayne. Mas Wayne lembrou que Kate havia sido nos anos 30 uma grande paixão de seu amigo e mentor John Ford (falecido há menos de dois anos). Ora, se Ford gostara tanto de Kate, porque ele John Wayne não haveria de gostar de atuar ao lado dela? E a equipe, com a direção entregue ao novato Stuart Millar foi para o Oregon filmar “Justiceiro Implacável”, que em Inglês deveria se chamar “Rooster Cogburn and the Lady”, mas cujo título foi reduzido simplesmente para “Rooster Cogburn”.


John Wayne e Katharine Hepburn
O xerife e a missionária - Rooster Cogburn (John Wayne) perde seu cargo de xerife porque o juiz Parker (John McIntire) o considera violento demais, o que prejudica a imagem da cidade. Parker teve que reconsiderar sua decisão e recontratar Cogburn quando um bando liderado por Hawk (Richard Jordan) e Breed (Anthony Zerbe) assaltam uma patrulha que transportava caixas de nitroglicerina e uma metralhadora Gatling dizimando todos os soldados. De passagem pelo rancho onde a missionária Eula Goodnight (Katharine Hepburn) mantém uma escola para jovens índios, os bandidos promovem desordem e Hawk mata friamente o pai da missionária. Em seguida chega ao local Rooster Cogburn, que está no encalço do bando e que relutante tem de aceitar que Eula o acompanhe na busca aos bandidos. Eula, acompanhada pelo jovem índio Wolf (Richard Romancito) quer ajudar a prender os malfeitores e levá-los a julgamento. Rooster, Eula e Wolf surpreendem os bandidos e recuperam a perigosa carga, passando a ser perseguidos pelo bando de Hawk. Cogburn vê como única possibilidade de fuga escapar por um rio, em uma jangada, levando os explosivos e a metralhadora. O enfrentamento se dá dentro do rio com o velho xerife, a missionária e o índio levando a melhor sobre os bandidos.

John Wayne e Katharine Hepburn
Plágio de um clássico? - Se Charles Portis escreveu a história da nova aventura de Rooster Cogburn, desta vez ao lado de uma evangelizadora com sequência culminante de ação passada em um rio, e a contratação de Katharine Hepburn se deu posteriormente, isso é o que pode chamar de grande coincidência. A formidável atriz havia, em 1951 filmado “Uma Aventura na África”, no qual desempenha uma missionária que acompanhada pelo capitão dono de um barco enfrentam e vencem inimigos alemães em tempo de I Guerra Mundial. Coincidência ou mera cópia trocando o Leste da África pelo Velho Oeste norte-americano e o raramente sóbrio capitão pelo xerife beberrão, o fato é que “Justiceiro Implacável” tem além das notórias semelhanças, a presença de Katharine Hepburn e John Wayne se não faz esquecer Humphrey Bogart, chega próximo dele como ninguém poderia suspeitar. “Justiceiro Implacável” é um western que foge da rotina pelos ingredientes inusitados a um filme do gênero mas que, mais importante que isso, possibilita um dos mais encantadores encontros do cinema. E certamente isso se deve em grande parte ao roteiro escrito por um certo ‘Martin Julien’, pseudônimo de Martha Hyer, atriz esposa do produtor Hal B. Wallis, revelando inesperados dotes como roteirista. Brilhantes, engraçados e por vezes hilariantes mesmo os diálogos travados entre Rooster Cogburn e Eula Goodnight em seus embates recheados de citações bíblicas e observações sarcasticamente humoradas entre um e outro. Até o emocionante diálogo final:
RoosterIrmã, se um dia precisar de um oficial de paz caolho...
EulaReuben, preciso dizer isto: viver com você foi uma aventura que qualquer mulher prezaria para sempre. Eu olho para você, para este rosto queimado, essa barriga imensa, essas patas de urso e esses olhos brilhantes e preciso dizer que você é um exemplo para o sexo masculino. E que tenho orgulho de ser sua amiga.
Rooster – A última palavra tinha que ser dela de novo.

John Wayne e Katharine Hepburn

John Wayne
Meu nome é Reuben - Acostumada a atuar ao lado de atores renomados e famosos por seus predicados artísticos, Katharine Hepburn não intimidou John Wayne neste filme pois o Duke está totalmente à vontade ao lado de Kate como se esta fosse a própria Maureen O’Hara. Perfeito e interpretando a ele próprio, como de hábito, mas num dos momentos mais felizes de sua carreira, resultado da plena interação com Katharine Hepburn, ambos aos 68 anos de idade. No filme tem menos importância a perseguição e confrontos com os bandidos que a terna história de amizade que nasce entre os dois envelhecidos personagens que cativam e conquistam irremediavelmente o espectador. Rooster confessar constrangido seu verdadeiro nome (‘Reuben’) a Eula é uma situação jocosa que ela minimiza amorosamente lembrando ser ‘Reuben’ um personagem bíblico. Quase 30 anos mais tarde, em “Pacto de Justiça” (Open Range), Robert Duvall confessa ao atordoado Kevin Costner seu incomum nome (‘Bluebonnet”), numa lembrança a este diálogo de “Justiceiro Implacável”. Ao final, Rooster e Eula se separam, não sem antes demonstrar mutuamente o respeito e a admiração que se apossou de ambos depois de intermináveis e nem sempre amáveis discussões.

John Wayne e Strother Martin (acima);
Katharine Hepburn e Richard Romancito
Filme de Duke e Kate - “Justiceiro Implacável” foi dirigido por Stuart Millar, mais lembrado como produtor que pelos dois filmes que dirigiu (o outro foi o western “Quando Morrem as Lendas”, com Richard Widmark). John Wayne, como de hábito merecia ser creditado como co-diretor, tantas foram as ‘sugestões’ feitas durante as filmagens. As sequências de ação não chegam a empolgar, ainda que bem dirigidas, especialmente a difícil descida da jangada carregada de explosivos em meio às pedras do rio durante a forte correnteza. Tudo com bela fotografia de Harry Stradling Jr. Richard Jordan se esforça para dar impressão de sadismo ao seu personagem enquanto Anthony Zerbe mesmo discreto é muito mais amedrontador como o bandido que ao final se redime. Pequenas participações de Strother Martin e John McIntire num filme todo ele da dupla Katharine Hepburn e John Wayne neste único e inesquecível encontro na tela. Wayne ainda atuaria em “O Último Pistoleiro” (The Shootist), sua magnífica despedida do cinema, enquanto Katharine Hepburn ainda teria tempo para abiscoitar mais um Oscar por “Num Lago Dourado”, em 1981. A grande atriz com esta interpretação transformou a missionária numa das mais marcantes personagens femininas dos faroestes, gênero onde as mulheres são pouco mais que meros enfeites.

Richard Jordan e Anthony Zerbe

John Wayne e Katharine Hepburn
Mais que perfeito Rooster Cogburn - Mesmo demonstrando em “Justiceiro Implacável” sinais da aparente enfermidade que sempre refutou ser Mal de Parkinson, a carreira de Katharine prosseguiria por mais 18 anos, com a atriz vindo a falecer aos 96 anos de idade, em 2003. Uma curiosidade é que o ator Richard Jordan declarou que durante as filmagens tinha a impressão que Kate poderia morrer a qualquer momento, dado seu suposto estado de debilidade. Mal sabia o ator que ele viria a falecer dez anos antes dela, em 1993, aos 56 anos de idade, logo após concluir sua participação em “Anjos Assassinos” (Gettysburg). “Bravura Indômita” teve uma sequência nada desabonadora e em certos aspectos até superior pois John Wayne está em “Justiceiro implacável” muito melhor como Rooster Cogburn que no filme que lhe valeu o Oscar. Imprescindível para os fãs do Duke e mais ainda pela presença da extraordinária Katharine Hepburn.

John Wayne e Katharine Hepburn que se tornaram grandes amigos
após filmarem juntos.